segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

RELATÓRIO AO GOVERNO - GOA 1956, ORLANDO RIBEIRO (1)

RELATÓRIO AO GOVERNO - GOA 1956, ORLANDO RIBEIRO (1)


Orlando Ribeiro (1911-1997)

Orlando Ribeiro, essencialmente dedicado ao ensino e investigação em Geografia, é considerado o renovador desta ciência no Portugal do século XX, e o geógrafo português com mais ampla projecção a nível internacional.
Licenciado em Geografia e História em 1932, doutorou-se em Geografia pela Universidade de Lisboa em 1936, com a tese A Arrábida, esboço geográfico.
Em 1937 segue para Paris como Leitor de Português na Sorbonne, onde viria a alargar horizontes com mestres como Marc Bloch, E. de Martonne e A. Demangeon.
De regresso a Portugal em 1940, foi sucessivamente nomeado Professor em Coimbra, e em Lisboa, onde, em 1943, fundou o Centro de Estudos Geográficos.
Da sua intensa actividade destaca-se, desde 1945, uma das suas obras de síntese mais conhecidas, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, e a criação, em 1966, da revista Finisterra.
São talvez as viagens, e os trabalhos delas resultantes, o melhor testemunho da sua actividade como geógrafo, as quais revelam as suas preocupações sociais com os territórios e povos estudados, e nos transportam à sua sensibilidade como fotógrafo.
Viajante incansável, sobretudo em Portugal e Espanha na década de 40, e pelo Mundo fora entre 1950-1965, com destaque para o ultramar português, Orlando Ribeiro oferece-nos leituras de muitos lugares do Mundo em que a observação científica não se desliga da natureza como um todo, dos costumes, da arte e, sobretudo, do elemento humano.


Foi casado com a também geógrafa Suzanne Daveau.


Goa em 1956
Relatório ao Governo *

O LUSO-TROPICALISMO COMO IDEOLOGIA LEGITIMADORA
Goa, ou o princípio do fim

Prefácio de Fernando Rosas

“A década de 50, em cujos meados decorre a visita de Orlando Ribeiro à Índia e a produção do Relatório que agora se publica, é marcada. no que diz respeito à política colonial do Estadão Novo, por um conjunto de tentativas de resposta aos ventos da descolonização do pós-guerra, ainda que o quadro de um continuismo essencial: a defesa ideológica, política e militar da integridade do «império», agora reconvertido em «Ultramar Português».

(…) Curiosamente, é numa conferência proferida em Goa, no Instituto Vasco da Gama, em Novembro de 1951 – no decurso de uma viagem de «estudo e pesquisa» paga pelo governo de Lisboa -, que Gilberto Freyre vai utilizar, pela primeira vez, a expressão «luso-tropicalismo». Com uma «enganosa legitimidade científica», é sobretudo como ideologia legitimadora, como «crença» acerca da originalidade da colonização portuguesa que o «luso-tropicalismo vai ser largamente partilhado nos meios culturais e políticos portugueses, designadamente influenciando antropólogos como Jorge Dias, agrónomos como Henrique Barros, universitários como Adriano Moreira ou geógrafos como Orlando Ribeiro, o que aliás, explicitamente transparece no Relatório agora dado à estampa.

(…) Quando Orlando Ribeiro visita a Índia sob administração portuguesa, de Outubro de 1955 a Fevereiro de 1956, e escreve o relatório sobre as suas impressões politicas da viagem a Salazar, neste ano, «a       questão de Goa» entrara, já há algum tempo, num nítido processo de agravamento.

(…) É claro que este discurso propagandístico de essência «luso-tropical» - curiosamente desmentido pelo próprio Relatório de Orlando Ribeiro que agora se publica – era apoiado por uma estratégia de resistência desde cedo delineada por Salazar(…).

(…) E o facto é que o rigor e a objectividade da investigação conduzida pela missão chefiada pelo geógrafo, o detalhe, a profundidade, a variedade de sítios, situações e pessoas persistentemente inquiridos «em menos de cinco meses de trabalho intenso» e nem sempre fácil, conduziram, antes mesmo da elaboração da monografia sobre o «Estado da Índia» - que nunca chegaria a ser publicada enquanto tal – ao Relatório que agora se dá a  conhecer. No sentido em que o rigor das conclusões do estudo se impôs, na consciência do cientista, ao que a visão ideológica do «império» que então perfilhava gostaria e encontrar. Sentindo necessidade, por isso mesmo, e face à «grande decepção» que fora, para si, «a Goa portuguesa» (ainda que, como assinala, parcialmente temperada pelas realidades do «núcleo tão português, embora tão restrito, de Damão»), de «apresentar ao Governo», directamente ao Presidente de Conselho, um «feixe de observações e reflexões» que ajudassem a dar «um conhecimento exacto dos problemas» e a deles tirar «certas directrizes de acção». «Homem de estudo», como se autodefine, «completamente afastado da acção política», impõe-se-lhe apresentar a realidade que observara «com inteira independência» e «a rude sinceridade» que era a sua.

     É, pois, este, na vasta produção científica de Orlando Ribeiro, provavelmente um documento singular, especificamente político – no sentido em que se destina a especificamente a alertar o Governo para certas situações de cariz político -, ainda que suportado em abundante e erudita informação sociológica e cultural fruto das suas observações.

(…) Em termos gerais, e salvo algumas excepções que ressalva, a «província de Goa» surgiu-lhe como «a terra menos portuguesa de todas as que vira ate então». E explica detalhadamente porquê, tomando como tópicos o desconhecimento geral da nossa língua», a «persistência de uma sociedade estranha e indiferente, quando não hostil à nossa presença», a limitada influência portuguesa «encerrada como um quisto no flanco do hinduísmo renascente» ou o predomínio de sentimentos autonomistas ou pró-indianos sobre o «patriotismo português». Não se inibe, mesmo, Orlando Ribeiro, de lamentar as deturpações da propaganda oficial (…), ou de verberar os casos de «corrupção», «prepotência», «exorbitação da autoridade», «parcialidade», imputados às autoridades portuguesas que encontrara envoltas em ambiente de «suspeição e delação» e de algum «nervosismo». Para o leitor de hoje, dir-se-ia que, fosse por erros históricos da colonização portuguesa no lidar com a complexa sociedade indiana, fosse por características de fechamento e de nacionalismo anti-ocidentais próprias desta ou por ela desenvolvidas, Portugal «perdera o pé» na Índia,   desligara-se política, social e culturalmente do «escol» indiano sem criar  outro que lhe fosse fiel, não estando à vista, salvo medidas pontuais, uma soluço fácil para os desafios que colocava a pressão da União Indiana.
      No fundo, através de uma abordagem frontal, o autor dá-nos da «Goa portuguesa», não deixando de o lamentar e de alertar o Governo para a situação, o reverso da imagem do «mundo português» mestiçado, miscigenizado, gerador de uma sociedade e outra específicas que a «vulgata luso-tropicalista» do regime costumava celebrar. Pesava sobre o «Estado Português da Índia», como diz Orlando Ribeiro ao concluir o seu Relatório, «um passado de abandono e um futuro de incertezas». Que melhor prefácio se haveria de encontrar para o desenlace que se avizinhava?"   

O RELATÓRIO QUE SALAZAR METEU NA GAVETA 
A «Missão de Geografia da Índia» na obra científica de Orlando Ribeiro

Introdução de Suzanne Daveau

"(…) Desde a proclamação da independência da União Indiana e do Paquistão, em 15 de Agosto de 1947, a tensão política internacional fez-se cada vez maior à roda da persistente e teimosa soberania de Portugal sobre o «Estado da Índia» (…). Em Janeiro de 1955, foi encarada, em conversa com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Prof. Paulo Cunha, a rápida realização duma Missão de Geografia à Índia. Esta foi criada em Maio de 1955 e Orlando Ribeiro nomeado Chefe da Missão em 1 de Agosto, tendo como adjuntos Raquel Soeiro de Brito e Mariano Feio, ambos seus discípulos e doutores em Geografia.

(…) Na realidade, os resultados científicos da Missão nunca chegaram a ser reunidos numa publicação única. Cada um dos participantes redigiu alguns artigos provisórios e elaborou, mais tarde, obras maiores, quer centradas nos problemas de Goa quer alimentadas comparativamente pela experiência ganha durante a Missão.

(…) O Relatório ao Governo, agora publicado pela primeira vez, nunca teve a menor difusão.

(…) Orlando Ribeiro conta, no Relatório, quanto a impressão resultante dos primeiros contactos humanos que teve na Índia foi para ele deprimente: uma verdadeira desilusão. A expectada Índia Portuguesa, brilhante jóia do Oriente e do Ultramar, lugar de fecundo encontro entre dois focos de velha civilização, lhe apareceu, de facto, como «a terra menos portuguesa» dos numerosos territórios de além-mar, tocados pela expansão plurissecular do seu país, que já conhecia. Sentiu dolorosamente o desprezo que os indianos tinham para com os «paclós» da metrópole e observou também, com não menos desânimo, que «Portugal não se interessa pela Índia».

(…) De volta a Lisboa no fim de Fevereiro de 1956,sentiu-se obrigado a dar logo conta ao Governo, promotor e financiador da Missão, não apenas das observações efectuadas mas, sobretudo, das preocupações que sentia, frente a uma situação não apenas grave no plano internacional mas que lhe parecia também muito mal encaminhada no plano local, pelas incompreensões e erros que marcavam a acção administrativa e cultural do Governo. Com a singeleza e frontalidade habitual do seu feitio, entendeu dever dirigir-se directamente à mais alta autoridade do país, sabendo por experiência que o seu Relatório se teria perdido de caminho, se utilizasse a via hierárquica normal. Conservava sem dúvida alguma ilusão, bastante ingénua, sobre a possibilidade de convencer Salazar, de quem respeitava a capacidade intelectual e de decisão, a modificar rapidamente a política em curso.
      Não conhecia pessoalmente o Chefe do Governo, então com 66 anos de idade e que dirigia o país havia já um quarto de século. Apenas chegou a vê-lo de perto uma vez, numa cerimónia oficial, e nunca mais trocou correspondência com ele. Mas acreditava ainda, visivelmente, na possibilidade da «acção renovadora que poderia ter exercido», se não tivesse sido tão «ávido de mandar» e «desprezador dos serventuários», como escrevera em 1981, ao fazer o balanço da sua vida científica e universitária.
     Salazar acusou a recepção do Relatório num bilhete autógrafo, agradecendo «a preciosa informação» e pedindo para mandar um exemplar ao Presidente da República. Numa carta dirigida a este último, datada de 18 de Maio de 1956 (e publicada em 1983), Salazar voltou ao assunto, dizendo o Presidente que lhe mandava um «estudo sobre a Índia Portuguesa pelas características do seu povo que achei do maior interesse. Lendo  ao mesmo tempo um trabalho de muito boa categoria o Prof. Orlando Ribeiro (de quem solicitei fosse oferecido a Vossa Excelência um exemplar), pode encontrar-se a confirmação do que o autor do primeiro afirma». Passamos assim a saber que o Relatório do geógrafo cruzou-se nas mãos de Salazar com outra informação de teor análogo, de autor não determinado. Mas nem o Presidente da República acusou a recepção do exemplar mandado, nem as informações  e recomendações contidas neste documentos parecem ter surtido efeito político  algum." 

*Bibliografia sob consulta directamente ao autor     

 JFSR 2016                                                                                  


                                  


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

FLORILÉGIO GOENSE- CAMILO CASTELO BRANCO



Camilo Castelo Branco (1825-1890)

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Mártires-Lisboa, 16 de Março de 1825 — São Miguel de Seide-Vila Nova de Famalicão, 1 de Junho de 1890) foi um romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor. Foi ainda o 1.º Visconde de Correia Botelho, título concedido pelo rei D. Luís. Foi um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa.


Em «Vulcões de Lama», publicado em 1.ª edição em 1886, o seu 54.º e último romance, Camilo – que nunca terá estado na Índia – coloca Artur Rodrigues Tavares, um dos principais personagens da obra, em Damão.

“Como tinha algum leitura das crónicas asiáticas de João de Barros e Diogo do Couto, pensava ir para a Índia. As suas ideias a respeito do mecanismo militar e da organização social portuguesa, em 1844, abonavam-lhe a esperança de ir à Ásia e regressar de lá com os louros dos Castros e Albuquerques para entupir de assombro os Canastreiros e os Ratos.

(…) Poucos meses depois saiu numa expedição para Goa com as divisas de sargento.

(…) mas o sargento Artur Tavares estava vivedouro e são como um pêro, em Damão, comandando um destacamento e cevando de amor o coração de uma goesa, viúva, possuidora de muitos pardaus e rupias, que o acompanhara. Quando Luís de Camões esteve em Goa, as portuguesas «caíam de maduras», disse o poeta em uma carta para o reino. É natural que, no transcurso de três séculos dissolventes, elas «caíssem de podres».

(…) A tal goesa parecia ter saído do gineceu da Rasa, geração das lúbricas bailadeiras do ciclo pomposo dos vice-reis. Tez cobreada, o artelho fino, e o peito viril ressequido, como tisnado do fogo interior. Embelezaram-no estes filtros, estes

                   mil feitiços

das raparigas, filhas dos

                   pardais castiços,

que o Bocage cantara em Goa e não soubera aproveitar.

(…) Enquanto, pois, o José Rato fazia votos por que um ramo de peste eliminasse o amado de Doroteia, estava ele nos palmares de Damão enroscado no amor serpentino da abastada goesa que o amava até ao apetite antropófago de o mastigar e esmoer no seu coração.

(…) O alferes Artur Tavares e a sua amantíssima contubernal velejavam o seu escaler pelas margens viridentes do Sandalcalo, que serpeia entre a Praça e o Damão Pequeno.

       A rica viúva do contrabandista de sal, toda paixão, no rescaldo dos trinta e dois anos, assinava-se D. Úrsula Falcão Sinary Pelinga. Estes dois apelidos índicos tinham sido o nome e sobrenome de sua oitava avó, uma parse, ou persa, natural de Ormuz. Seu oitavo avô, fidalgo português, e capitão-governador daquela fortaleza levantada pelos gigantes manuelinos no golfo Pérsico, chamava-se Luís Falcão, um grande frascário, imortalizado nas Cartas de Simão Botelho, e nas Lendas, de Gaspar Correia.

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(…) Resolvera Artur, obtida licença do governador-geral, vir ao reino com D.Úrsula, e aqui, mesmo contra a vontade dos pais, casar com ela.

Esperavam a licença de Goa, e entretanto recreavam-se em Damão costeando no seu embandeirado escaler à ourela do frondente Sandalcalo.

(…) Os jornais da capital tinham anunciado a chegada de Artur Tavares, alferes do exército ultramarino, entre os passageiros vindos num paquete inglês procedente da Índia. Sim, o exército português ultramarino, um exército que lá estava e está a manutir a obra impávida dos Albuquerques, dos Castros e dos Almeidas por quem o Tejo ultimamente desatou a rir.

 JFSR 2016


domingo, 10 de janeiro de 2016

CUNHA RIVARA, UM ORIENTALISTA INJUSTAMENTE ESQUECIDO



 CUNHA RIVARA (1809-1879)
 UM ORIENTALISTA INJUSTAMENTE ESQUECIDO  

      Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara (Arraiolos, 23 de Junho de 1809 — Évora, 20 de Fevereiro de 1879), médico diplomado em Coimbra, professor, bibliógrafo, deputado às Cortes, destacou-se enquanto estudioso da história da presença portuguesa na Índia e como defensor da língua concani.
    Não se sentindo atraído pela prática clínica, optou por iniciar uma carreira administrativa no Governo Civil de Évora, no qual ingressou em 1837 como oficial administrativo da respectiva secretaria. Em Outubro desse mesmo ano foi nomeado professor de Filosofia Racional e Moral do Liceu de Évora.
    Em 1838 foi nomeado pelo governo da rainha D. Maria II para director da Biblioteca Pública da cidade de Évora, cargo que exerceu até 1855, distinguindo-se como bibliotecário e bibliófilo, levando a cabo um trabalho assinalável na reorganização daquela biblioteca e publicado o seu catálogo.
    Nas eleições gerais de Dezembro de 1852 foi eleito deputado pelo círculo de Évora, não concluindo a legislatura por ter sido nomeado secretário-geral do governador-geral do Estado da Índia, acompanhando António César de Vasconcelos Correia, 1.º conde de Torres Novas, que fora nomeado para o cargo.
    Entre as missões que lhe foram confiadas contou-se o estabelecimento da circunscrição dos bispados católicos da Índia sob jurisdição do Padroado do Oriente, então redefinidos pela Concordata de 1857, pois para além das funções de secretário-geral, em 1862 foi nomeado para o cargo de Comissário Régio no Oriente. 

    Essas funções, e a questão das dioceses, levaram a que empreendesse várias viagens pelo subcontinente indiano e por outras regiões do Oriente, em resultado das quais elaborou um extenso trabalho de investigação descrevendo grande número de ruínas e monumentos relacionados com a presença dos portugueses naquela região.
    Reconduzido por sucessivas portarias, acompanhando os mandatos de Vasconcelos Correia e do seu substituto José Ferreira Pestana, permaneceria no cargo até 1870, ano em que foi dada por finda a sua acção.
    Foi, porém, nomeado para continuar a história da Índia com remuneração igual, acumulando com o cargo gratuito de Comissário dos Estudos da Índia, assim se conservando Rivara na Índia até 1877, ano em que regressou a Portugal.
    Para além de uma atitude marcadamente orientalista, focada na história da presença portuguesa na Índia, como sucessor dos grandes cronistas portugueses do passado, uma espécie de João de Barros ou Diogo do Couto oitocentista, Rivara produziu um destacado trabalho em prol do concanim, a língua nativa de Goa.

    Se o orientalismo, sobretudo a partir de Edward W. Said, assumiu um aspecto fortemente negativo, como método para garantir a sujeição dos povos orientais às potências europeias, outros reconhecem que o trabalho de diversos orientalistas contribuiu para ampliar os limites do conhecimento histórico, e nessa perspectiva sempre se poderia inscrever Rivara de maneira positiva no âmbito do orientalismo, relativamente à sua campanha para a recuperação social e cultural do concanim. O seu «Ensaio histórico da língua concani» (1858) é, ainda hoje, considerado como a obra que permitiu um melhor conhecimento desta língua e feito com que readquirisse a sua dignidade.




 Bibliografia: sob consulta directamente ao autor. 

 JFSR 2016

sábado, 9 de janeiro de 2016

FLORILÉGIO GOENSE - RODRIGUES MIGUÉIS



José Rodrigues Miguéis (1901-1980)



José Claudino Rodrigues Miguéis nasceu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1901, e faleceu em Nova Iorque a 27 de Outubro de 1980. Autor de Páscoa Feliz, novela (1932); Onde a noite se acaba, contos e novelas (1946); Léah e outras histórias (1958, Prémio Camilo Castelo Branco, 1959); Uma aventura inquietante, romance (1959); Um Homem sorri à Morte, narrativa autobiográfica (1959); A Escola do Paraíso, romance (1960); O Passageiro do Expresso, teatro (1960); Gente da Terceira Classe, contos e novelas (1962); É proibido apontar – Reflexões de um burguês -I (1964); Nikalai! Nikalai! (1971).      
Formado em Direito em 1924, todavia nunca exerceria de forma sistemática a profissão, tendo consagrado a sua vida à Literatura e à Pedagogia. Neste último campo, viria a licenciar-se em 1933 em Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas.
Herdando do pai, um imigrante galego, ideias republicanas e progressistas, cedo entrou em conflito com o Estado Novo, o que acabaria por o levar ao exílio para os Estados Unidos a partir de 1935.
Pertenceu ao chamado grupo da “Seara Nova”, ao lado de grandes autores como Jaime Cortesão, António Sérgio, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa ou Raul Proença.

«O Espelho Poliédrico, crónicas»
Editorial Estúdios Cor, SARL – Lisboa, 1972



Nota do Autor
Estas crónicas – memórias, comentários e ficções -, agora coligidas na ordem aproximadamente cronológica dos assuntos, foram na sua maioria publicadas no "Diário de Lisboa", entre 1968 e 1971, sob o mesmo título geral.

Policromia Indiana

" (…) Nos anos vinte andava pela Baixa, onde o conheci e nos fizemos amigos, um indiano, católico e de nome português, que dizia pertencer à nobre casta dos xátrias, ou príncipes-guerreiros, a qual, segundo a sua versão algo simplista da história da Índia, fora destronada e subjugada pelos brâmanes. Nunca cheguei a compreender, nem ele me explicou, como é que os bravos guerreiros se deixaram assim subverter pelos inermes sacerdotes. Havia nele uma espécie de ressentimento ancestral contra os usurpadores, e era talvez isso que o levava a dizer-se «comunista». Eu ria-me… Instou-me muito a apresentá-lo a Jaime Cortesão, ao tempo director da Biblioteca Nacional. Autorizado por este, levei-o a São Francisco, onde durante meia hora ele massacrou o historiador com uma nervosa e loquaz divagação a respeito das tribulações que sofrera a sua nobre casta. Pura propaganda, suponho eu. Esgotado o assunto, despediu-se. Depois de o reconduzir cerimoniosamente à porta do gabinete, Cortesão voltou-se para mim: «Que grande xátria me saiu este seu amigo!»
        Tempos depois, o Gonzaga (chamemos-lhe assim) abordou-me no Rossio, muito excitado:«Já não somos amigos!» disse.«Você traiu a nossa amizade. Desconsiderou-me!» Intrigado e risonho, indaguei das suas razões. Tornou-me ele:«Você, ontem à noite, andou a passear aqui, de braço dado com o Eucaristino de Mendonça! –Ora essa! Então ele não é indiano, português e católico como você? E ainda por cima poeta!»

O Eucaristino de Mendonça* era um moço magro, simpático e algo triste, pobre com certeza, de pele escura mas de feições delicadas, o tipo perfeito – diria eu – da raça dos «príncipes», ariana pura, em contraste com o Gonzaga, que era mais claro de tez, mas de traços um tanto grosseiros: dravidianos. Publicara e tinha-me oferecido em 1924 um livrinho de versos – Hindus, poemas indianos* – composto com a joalheria pseudo-oriental que ainda então era de moda entre nós, e recheado de ingenuidades, fonemas indianos, itálicos, erros de métrica e de grafia. Creio que o autor morreu tuberculoso pouco tempo depois. Talvez intoxicado de bijuteria poética?
 O Gonzaga bradou fora de si: « Ele é sudra! E eu sou xátria! Não temos nada em comum!»   O meu comentário deve ter sido breve: «Bolas!»
     As nossas relações esfriaram um tanto. Corridos anos, li num jornal que ele aderira ao partido do governo. Professor de inglês, desempregado, procurava dar entrada no quadro docente de um liceu. O gesto não me surpreendeu nem me afectou: era da sua conta. Certa manhã, estava eu sentado a sós n’A Brasileira do Rossio, quase deserta, quando ele entrou e me abordou. Nem o convidei a sentar-se à minha mesa. De pé, ele começou a dar-me as razões da sua adesão. Achando-as desnecessárias, pedi-lhe delicadamente que não continuasse. Ele negou, excitado, que fossem explicações. Então o que eram? Perguntei-lhe. Ele voltou à carga –o pão-da-boca e outras que tais- e eu, já enervado (nunca pude ver num homem rebaixar-se) gritei alto: «São explicações! Não as quero ouvir! Guarde-as consigo!» A minha voz, espantada de si própria, reverberou nos espelhos e as raras cabeças voltaram-se a olhar-nos. Como ele se não calasse, dei uma palmada no tampo da mesa e berrei: «Vá-se embora! Não me chateie e não me volte a falar!» Então ele, pálido, recuou e disse: «Ah, pois muito bom dia!» e foi tomar lugar algures, atrás de mim. Voltei-me na cadeira, a olhá-lo.
     Sentados em fila contra os espelhos, estavam quatro ou cinco indianos, calados, imóveis, inexpressivos. Não pude ler qualquer pensamento ou sentimento – cólera, ironia, fosse o que fosse – naqueles olhos negros e luzentes, naqueles rostos redondos, macios, morenos, sem uma ruga: impenetráveis. Arre! Confesso que me senti pequeno diante de tanta impassibilidade. E o Gonzaga lá estava. O café recaiu no silêncio matinal e sonolento, e eu acabei de tomar a minha droga.
     Percebi então que aqueles homens não eram da minha grei, não eram portugueses (como o cónego). Foi a primeira vez que medi o vão ou abismo que nos separava: quatrocentos anos de convívio racial e cultural, de burocracia e proselitismo, de baptismos e apelidos nobres, não tinham criado entre nós qualquer unidade de carácter. (Isto não obstante as inúmeras e fecundas lealdades de tantos indo-portugueses, alguns deles ilustres.)
    No amigável convívio de intelectuais indo-portugueses, trazidos à Seara Nova por António Sérgio, ele próprio filho de mãe indiana, já eu me apercebera  de que a sua atitude filosófica nada tinha em comum com o nosso racionalismo idealista, reformista, nem com as várias nuanças do materialismo ocidental: era antes um misticismo eclético, feito de tradições hinduístas mais ou menos amalgamadas e mal assimiladas, em que entravam os Vedas, o Kharma, a Metempsicose, Rabindranath Tagore, Gandhi, Annie Besant, Khrisna Murti…, tudo o que, desde Schopenhauer, creio eu, do arianismo de Max Muller e outros, se tornara de moda no Ocidente, e sobretudo no mundo anglo-americano: o orientalismo ou indianismo que tem fascinado muito boa gente, incluindo Romain Rolland e Hermann Hesse. (…)"

* «A Literatura Indo-Portuguesa», Vimala Devi e Manuel de Seabra, JIU Lisboa 1971, p.319

 JFSR 2016

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

FLORILÉGIO GOENSE-EÇA DE QUEIROZ



Eça de Queirós ( 1845-1900)

   José Maria de Eça de Queirós, um dos mais importantes escritores portugueses, autor de romances de reconhecida importância como Os Maias e O Crime do Padre Amaro, nasceu em 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim, filho de José Maria Teixeira de Queirós, magistrado e par do Reino, e de Carolina Augusta Pereira d'Eça.
   Em 1866, Eça de Queirós terminou a Licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra, e passou a viver em Lisboa, exercendo a advocacia e o jornalismo. Foi director do periódico O Distrito de Évora, e colaborou em publicações periódicas.
   Por influência do seu companheiro e amigo universitário Antero de Quental, entregou-se ao estudo de Proudhon e aderiu ao grupo do Cenáculo. Em 1870, tomou parte activa nas Conferências do Casino, e iniciou, juntamente com Ramalho Ortigão, a publicação dos folhetins As Farpas.
    Nomeado administrador do concelho de Leiria, foi enquanto permaneceu nesta cidade que Eça de Queirós escreveu a sua primeira novela realista, O Crime do Padre Amaro, publicada em 1875.
   Tendo ingressado na carreira diplomática, em 1873 foi nomeado cônsul de Portugal em Havana, Cuba.
   Transferido para Inglaterra, dois anos mais tarde, durante os quais exerceu o cargo em Newcastle e Bristol, foi em terras britânicas, onde residiu até 1878, que iniciou a escrita de O Primo Basílio, e começou a arquitectar Os Maias, O Mandarim e A Relíquia.
   Em 1888 foi transferido para o consulado de Paris. Publica Os Maias, e chega a publicar na imprensa Correspondência de Fradique Mendes e A Ilustre Casa de Ramires.
   Nos últimos anos, escreveu para a imprensa periódica, fundando e dirigindo a Revista de Portugal. Sempre que vinha a Portugal, reunia em jantares com o grupo dos Vencidos da Vida.
    Morreu em 16 de Agosto de 1900 na sua casa de Neuilly-sur-Seine, perto de Paris.

       
   “Uma Campanha Alegre”, publicado em Lisboa em dois volumes em 1890-1891, é uma colectânea de folhetins escritos por Eça de Queirós em As Farpas, são críticas à vida social e política, abrangendo assuntos como religião, jornalismo e literatura da época.

XXXIV
   Setembro de 1871
   “Andávamos inteiramente esquecidos da Índia! Uma clara manhã ela aparece violentamente no meio de nós, envolta num telegrama do senhor visconde de S. Januário. Por essa ocasião muito bom português se admirou que a Índia ainda fosse nossa! Ela saíra, havia muito, das pompas solenes do artigo de fundo. Quase não aparecia nos orçamentos. Obscura, velha , arruinada, estéril, dobrada sobre si mesma, todos a supúnhamos unicamente ocupada, nas brumas distante, a comer o seu arroz! A notícia de que ele ainda tinha vitalidade bastante para se revoltar – espantou! A certeza que ainda ali havia soldados, cidadãos, fortalezas, interesses, telégrafos – quase aterrou!
   Uma vez que a gloriosa Índia ainda existia, era necessário que a respeito dela existisse o correspondente brio patriótico. Sacudiu-se o velho brio patriótico do pó e da caliça –e cada um envergou o velho brio patriótico!
   Começou então o movimento. A baixa teve os seus alvitres heróicos. Os jornais perfilaram de novo, em parada, as frases solenes, de peruca e rabicho, que celebram num ritmo dormente o alto amor da Pátria. Meteu-se na mão do senhor infante D. Augusto uma espada – condicional. A própria Estefânia, comovida, venceu os nervos e a preguiça, e partiu, cheia de mobília e de brio, a salvar o mapa das possessões…
   Nós, entretanto, ríamos.
Januário Correia de Almeida.

(…) Pois bem! Ainda assim uma revolta na Índia não tem seriedade. E o motivo é que os oficiais, que, para terem maior número de rupias de soldo, tentaram uma revolta, vêem-se, realizada ela, singularmente embaraçados.

(…) Aí está a razão por que uma revolta na Índia não tem valor, e porque foram tão supérfluos os vossos fervores patrióticos!

(…) A Índia não serve senão para nos dar desgostos.
   É um pedaço de terra tão escasso que se anda a cavalo num dia. As pequenas povoações caem em ruína e em imundície; não há nelas movimento, nem iniciativa; a única cultura é o arroz, que exportam e cinco para importar a oito; a única indústria, fazer olas, que são os encanastrados de palmeira com que se erguem os pacaris, alpendres coloridos e frescos que sombreiam as janelas; não existe nenhum comércio; os tributos esmagam; (…) e no entanto velhos pardieiros, que se esboroam às mordeduras do sol, esconderijos de corvos, lembram as nossas glórias e alastram o chão de caliça. Tal é a Índia Portuguesa.
   Noutro número de As Farpas, lembrámos, a respeito das colónias, este grande melhoramento – vendê-las! Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da Índia – dá-la!

(…) Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!"
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*Januário Correia de Almeida, Visconde de São Januário, Governador-Geral do Estado da Índia (1870-71)

** Revolta de Marcela, em 21 de Setembro de 1871, durante o Governo do Visconde de São Januário, levando à mobilização de meios extraordinários, e na sequência da qual foi extinto o Exército da Índia.

 
Bibliografia: sob consulta directamente ao autor. 


 JFSR 2016

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

FLORILÉGIO GOENSE - AQUILINO RIBEIRO



Aquilino Ribeiro (1885-1963)

Nascido a 13 de Setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe, freguesia de Carregal de Tabosa, filho de Mariana do Rosário Gomes e do padre Joaquim Francisco Ribeiro.
Verdadeiro "homem de acção", um tipo social que o princípio do século XX muito exaltou, adere por completo às movimentações republicanas, quer através de um posicionamento pela escrita, quer através da participação em actividades que acabam por levá-lo à cadeia.
A este activismo político, há que juntar a tenacidade com que, durante mais de duas décadas, promoveu uma agregação formal e institucionalizada dos escritores até conseguir criar, unido a alguns contemporâneos, a Sociedade Portuguesa de Escritores, de que foi fundador e presidente, isto no ano de 1956.
 É considerado por alguns como um dos romancistas mais fecundos da primeira metade do século XX. O tempo não lhe subtrai o prestígio de grande figura da escrita, reconhecido dentro e fora de de Portugal. Atestam esse prestígio factos como a apresentação da sua candidatura ao Nobel, proposta por Francisco Vieira de Almeida e subscrita por José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Joel Serrão, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta, Vergílio Ferreira, entre muitos outros.
 "Alcança quem não cansa", diz o ex-libris de Aquilino Ribeiro. Não poderia ter escolhido melhor este escritor, que se designava a si próprio como um "obreiro das letras" e que trabalhou incansavelmente quase até ao dia da sua morte, chegada a 27 de Maio de 1963.
"Mais não pude", pretendeu Aquilino que fosse o seu epitáfio.











«CONSTANTINO DE BRAGANÇA VII VIZO-REI DA ÍNDIA», por Aquilino Ribeiro
Portugália Editora, Lisboa, 1947


“ Palavras Preliminares
(…) Consultaram-me: tem relevo próprio este vizo-rei, ornamento da estirpe sereníssima? – Julgo que sim. – Está disposto a escrever a sua história? – E a minha pena, intransigente embora modesta, não sofre limitações? –Ora essa!
       O livro, que eis aqui, nasceu dum curto diálogo de semelhante teor. (…) Confesso que não saí da esteira de Diogo do Couto, Gaspar Correia, P.e Francisco de Sousa, ecónomos da verdade que nos resta. Que novidades oferece este livro? Presumo que algumas achegas para os historiadores imparciais e determinados vislumbres duma realidade, quanto a mim mal entrevistos até à data, embora surpreendidos por uma lupa convexa. (…) ”.
Casa da Soutosa, Agosto de 1947  Aquilino Ribeiro

Capítulo III
A conversão dos gentios. Política e água benta. O brâmane relapso
(…) A história do domínio português no Oriente está tão estreitamente vinculada à história da Igreja que, abstraindo desta, ficaria na obscuridade ou sem sentido grande parte da gesta militar e política.
       Constantino não podia atravessar imune ao estigma da sua nação. Homem aberto a todas as auras do meio, não admira que fosse profundamente católico. (…) 

       O novo Vizo-rei continuava, pois, em matéria de proselitismo, a política que iniciara Francisco Barreto, individuada em Goa pelos baptismos em monte.
       A pia sacramental foram levados bandos e até multidões inteiras de indígenas, com demonstrações de festa a que se associara, depois de fomentá-los por toda a espécie de maneiras, o Governador-geral. (…) Estava escrito que Constantino perfilhasse a obra do Apostolado. Dois dias depois de desembarcar em terra, foi de visita ao Colégio da São Paulo, onde os padres o receberam solenemente com um baptismo geral. E acrescenta o Oriente Conquistado: «Edificado e contente de ver este bautismo, se declarou por amparo e arrimo dos que de novo se convertessem, e todos os dias mandava ao Padre Pai dos Cristãos cinco, oito, dez catecúmenos, que ele mesmo convertia. Os fidalgos com este exemplo convertiam os gentios seus fâmulos e corretores, os cidadãos, os moradores dos seus palmares, e os levavam ao Vizo-rei como mimo, que ele estimava sobre todas as riquezas do Oriente. Como se multiplicavam os missionários, cresceram também os catecúmenos, e de onze de Setembro até onze de Dezembro do mesmo ano se bautizaram na nossa Igreja por quatro vezes seiscentos e quarenta e sete almas. Havia entre os gentios um brâmane mui versado nas Ordenações do Reino, grande bacharel e demandista. Meteu-se o Vizo-rei um dia com ele na Câmara depois de o ter bem despachado, vestiu-o com o seu roupão, lançou-lhe ao pescoço uma fermosa moeda de oiro com o hábito de Santiago de que era comendador, e pondo-lhe a gorra na cabeça lhe disse:
      - Fazei-vos cristão e pedi o que quiserdes, que tudo vos darei.
      Mas como a inclinação às demandas é indício de ânimo perverso, di-lo o Espírito Santo nos Provérbios: Homo perversus suscitat lites, não quis o presumido rábula render-se a tantos favores.»

JFSR 2016
       

domingo, 3 de janeiro de 2016

FLORILÉGIO GOENSE - TOMÁS RIBEIRO



Tomás Ribeiro (1831-1901)

Tomás António Ribeiro Ferreira  (Parada de Gonta, Tondela, 1 de Julho de 1831 — Lisboa, 6 de Fevereiro de 1901), mais conhecido por Tomás Ribeiro (Thomaz Ribeiro, na época), foi um político, publicista, poeta e escritor ultra-romântico português. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu advocacia durante pouco tempo, pois cedo enveredando pela carreira política.
Membro destacado do Partido Regenerador, foi Presidente da Câmara Municipal de Tondela, Deputado, Par do Reino, Ministro da Marinha, Ministro das Obras Públicas e Governador Civil dos distritos de Braga e do Porto. Foi ainda secretário-geral do governo da Índia Portuguesa e embaixador de Portugal no Brasil.
Eleito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa foi presidente da sua Classe de Letras. Escritor e jornalista multifacetado, Tomás Ribeiro deixou uma obra vastíssima. Escreveu, para além do D. Jaime (1862), as obras A Delfina do Mal (1868), Sons que Passam (1868), Vésperas (1880), Dissonâncias (1890), e as crónicas reunidas em Jornadas (1873). Esta última obra, a par da peça dramática A Indiana (1873) e vários poemas coligidos no volume Vésperas reflectem a sua experiência na Índia Portuguesa, em particular a vivência como administrador colonial em Goa, sendo nelas patente um certo gosto pelo exotismo, ainda ao jeito romântico.

Quando Januário Correia de Almeida, o 1.º visconde de São Januário, foi em 1870 nomeado governador da Índia Portuguesa, Tomás Ribeiro foi escolhido para o acompanhar com o cargo de secretário-geral do governo daquela colónia. Em Goa destacou-se pela sua acção a favor da cultura portuguesa, tendo fundado em 1871 o Instituto Vasco da Gama, uma instituição destinada a promover e reforçar a cultura literária goesa.

" Introdução (Aos meus leitores de Portugal)

(…)De Concão ou Goncão, como primitivamente se chamava, vem –concani- que é o nome da língua ou dialecto do país; uma degeneração da língua marata salpicada de industani, e até português. Concão quer dizer: terreno roubado ao mar. E na verdade afirmam a língua, a geologia, a tradição e a experiência de todos os dias que em volta de umas ilhas pequenas, que maculavam a costa, fora o mar juntando despojos e formando sapais, que a pouco e pouco se transformaram em extensissimas várzeas, ainda hoje mais baixas que as águas vivas das marés. Alargando-se assim as ilhas, o mar em volta delas foi-se estreitando em canais, alguns dos quais pelo andar dos tempos se entulharam.
Ainda hoje o mar forma destes sapais, que se aforam segundo a moderna legislação do país, nascendo deles novas propriedades.
Em vista da formação progressiva de tantos terrenos aproveitáveis, os povos agricultores e pacíficos dos Gates desceram das serranias em grandes massas e vieram estabelecer-se no Concão.
Conhecendo a improficuidade das tentativas individuais, para o aproveitamento daqueles terrenos, constituíram-se em comunidades agrícolas. Cada aldeia tinha e tem uma porção de terrenos que cultivava em comum, e em comum se faziam os grandes valados de vedação, «à maneira de adiques de Flandres» diz Barros, para que o mar lhes não esterilizasse as várzeas, e os canais de irrigação, e o enxugamento de pântanos. Tudo o que modernamente se faz na Europa e que se julga original. Cada uma destas aldeias tinha a sua autonomia; nomeava os seus empregados e mantinha atribuições policiais, judiciais e administrativas, pela autoridade colectiva dos seus gancares (senhores de terras).(...)"

Thomaz Ribeiro, JORNADAS Segunda Parte - Entre Palmeiras ( De Pangim a Salcete e Pondá), Livraria Central de José Diogo Pires-Editor,Coimbra,1874

Bibliografia: sob consulta directamente ao autor.

JFSR 2016